quinta-feira, 9 de julho de 2009

HAMLET EM CORDEL


Por Rafael de Oliveira

Epígrafe

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar a tua filosofia”
Hamlet, ato I, cena V.

Prólogo 133 estrofes

Dinamarca e Noruega,
Há pouco tempo passado,
Batalharam dura guerra
A buscar maior condado.
Nessa guerra a Noruega
Teve o rei assassinado.
Esse rei foi Fortimbrás,
Cujo filho o trono herdou.
Tinha o nome de seu pai
E vingá-lo desejou.
Reformou um forte exército,
E ao inimigo marchou.
Porém, nesse meio tempo,
A Dinamarca perdeu
Seu rei, enquanto dormia,
A morte assim conheceu.
Para assumir a coroa,
Seu irmão dela valeu...
História do Príncipe Hamlet da Dinamarca
Ó Musas da Poesia,
Talhadas em escultura,
Peço-vos inspiração
Pra concluir tal ventura
Nos riscos de minha pena,
Tecendo a Literatura!
Meu cordel hoje é teatro,
Grande arte de todo dia.
Narrarei a melhor peça
De toda a dramaturgia.
Com versos humildes, mas
Fiéis a tal regalia.
Ó Musas da Poesia,
Fazei-me merecedor
Da rima, do metro, e todo
Dom que tem o escritor.
Que eu faça meus versos como
Quem faz tudo com Amor.
O castelo de Elsenor,
No reino da Dinamarca,
É mal assombrado pelo
Fantasma de um monarca,
Cuja vida foi tirada
Por alguém de sua marca...
Numa noite de silêncio
E de muito nevoeiro,
Dois guardas fazem a ronda
Com hábito costumeiro,
Quando por entre o sereno,
Um disse ao seu companheiro:
- Caro senhor, meu amigo,
Venha aqui pro meu lugar.
Aquilo que vejo, juro
Lá está a nos olhar.
É o fantasma do rei
Que vem pra nos assustar.
E o outro assustado disse:
- Pois é com toda razão.
Não há dúvidas que isso
É nosso rei morto então.
Deve querer dizer algo
Pra vir como assombração.
- Vamos avisar Horácio,
Homem de bom caminhar,
Leal ao príncipe Hamlet,
Com quem vem a estudar.
Contemos tudo ao rapaz
Para que possa ajudar.
Os guardas pela manhã
Disseram ao estudante.
Naquela noite seguinte,
Horácio foi ao mirante.
O fantasma apareceu
A eles bem adiante.
Horácio interrogou-o
Mas a alma nada disse.
Seu olhar era severo;
Fazia medo a quem visse.
Só quando veio a aurora
Permitiu que se partisse.
O nome do rei já morto
Por Hamlet se conhecia.
Seu filho, o príncipe herdeiro,
Por este também valia.
Hamlet pai e Hamlet filho,
Na corte real havia.
Há somente um mês passado,
Rei Hamlet tinha morrido.
Porém o bondoso príncipe
Do trono não foi valido.
Pois ainda era estudante,
Maior não havia sido.
Seu tio Cláudio tornou-se
Desse modo, o novo rei,
E nesse mês que passava
Concluiu: - Me casarei.
E desposou a cunhada
Gertrudes, pois eu bem sei.
Com seu pai morto do nada
E a mãe casada co’o tio,
Príncipe Hamlet se viu
Num nervoso desvario.
Tocar sua vida em frente
Era um grande desafio.
Ambos Cláudio mais Gertrudes
Ao príncipe argumentavam.
Mas Hamlet não entendia
Porque não mais respeitavam,
Se com apenas um mês,
No luto, já se casavam.
O casal, rei e rainha,
Tentava a Hamlet, em vão
Explicar que tudo aquilo
Era o destino, pois não.
Mas o príncipe sentia
Que havia uma armação.
Hamlet decidiu voltar
Para a universidade
Sua mãe pediu: - Não vá;
Fique por boa vontade.
Hamlet, por certo, ficou
E soube uma novidade.
Naquele dia um rapaz,
Com Hamlet veio falar.
Era Horácio, que chegava,
Finalmente em dito lar
E um aviso do sombrio
Ao príncipe foi contar.
- Senhor meu príncipe Hamlet,
Trago penoso recado:
Essa noite vi seu pai
Como um mal afortunado.
Ele era um pobre fantasma
Que na torre tem ficado.
E o príncipe respondeu:
- Não me zombes desse jeito.
Vivo uma grande desgraça
E assim exijo respeito.
Mas Horácio logo disse:
- Falo como quem tem peito.
Príncipe Hamlet ouviu
Com atenção o rapaz.
E naquela dita noite,
Foram em rumo sagaz.
Os dois mais os dois guardas
Assim seguiram no mais.
À meia noite, o fantasma
Na torre fez-se presente.
Os quatro, muito assustados,
Tiveram olhar temente.
O príncipe perguntou
Àquele medonho ente:
- O que queres ser horrendo
A pairar na madrugada,
Além de nos assustar
Como vil alma penada?
Eu nomeio-te Rei Hamlet,
Cuja vida vale nada.
O fantasma apenas fez
Um gesto mui delicado.
Só seu filho, o triste príncipe,
O seguiria de lado.
A uma parte sombria
Tiveram caminho dado.
Distanciados dos outros,
O fantasma assim falou:
- Escute-me, pois num pronto
Seguir meu caminho vou.
Deves vingar-se daquele
Que na morte me jogou.
O príncipe se assustou
Com aquela nova loa.
O fantasma prosseguiu
Sem confessar nada à toa:
- Quem me assassinou, meu filho,
Está usando a coroa!
Assustado, Hamlet disse:
- Atesta tal confissão
Para que assim eu consiga
Vingá-lo tendo razão.
O fantasma disse: - Escute
A mais horrenda traição:
Quando estava a descansar
Num sono maravilhoso,
Uma serpente me veio
Com sangue mais que danoso,
E dentro de meu ouvido
Botou um licor leproso.
Envenenado, dormi
Abraçado a cruel morte.
Morri como quem não peca
Sem ter luta, sem ter corte.
Pelas mãos de meu irmão
Descobri ruidosa sorte.
E continuando disse
O fantasma para o jovem:
- Soma na tua vingança
As venturas que se movem.
Mas deixe tua mãe livre
Das tempestades que chovem.
Mal raiou a alvorada
O fantasma já partira.
O príncipe foi aos outros,
Porém não contou o que ouvira.
Hamlet pediu que jurassem
Acerca do que ele vira.
Horácio, os dois cavalheiros
E Hamlet com uma espada.
Todos eles com as mãos
Por sobre a arma velada,
Juraram nada falarem
Sobre aquela madrugada.
Mas tudo aquilo que vira
E ouvira do tal fantasma
Fez com que Hamlet mudasse
Da cara tristonha à pasma.
A Dinamarca sofria
O agonizar da Asma.
No mesmo castelo havia
Polônio, homem ligeiro.
Pai de Laertes, um bom
Estudante e cavalheiro,
E de Ofélia, senhorita
De perfume lisonjeiro.
Polônio era o conselheiro
Que o rei Cláudio sempre quis.
Fiel ao tirano chefe
E de traços senhoris.
Um dia Laertes fora
Estudar lá em Paris.
Ofélia ficara só
Com seu pai a conviver.
E com ele a pobre moça
Sobre o Amor foi dizer
Que recebera cortejos
De um bom rapaz com prazer.
Esse rapaz fora Hamlet,
Que por Ofélia sentia
O amor dos homens justos
- O que a donzela queria! -
Porém seu pai a proibiu
De aceitar tal cortesia.
Voltando ao príncipe Hamlet
Depois da tal madrugada,
O rapaz mudara tanto
Como do dengo à lapada.
Numa manhã viu Ofélia
E a deixou muito assustada.
Ofélia fora ao seu pai
E contou-lhe o ocorrido.
A pobre se lastimava
Como quem só tem sofrido.
Hamlet estava medonho,
Por sinal, enlouquecido.
Polônio assim concluiu
O porquê de tal postura,
Segundo sua cabeça
Aquilo era então loucura.
Loucura de amor proibido
Que no mundo não tem cura!
Ele ligeiro seguiu
O seu discurso na linha.
Contou toda aquela história
Para o rei, para rainha
E ambos temeram que
O joio matasse a vinha.
O rei Cláudio creditou
E assim quis testemunhar
Aquele desvario todo
Do sobrinho a caminhar
E com Polônio se foi
Uma armadilha tramar.
O conselheiro seguiu
O jovem príncipe então.
Encontrou-o numa sala
Lendo um rude dramalhão,
Uma história de malandros
Num livro que tinha em mão.
Conversaram, porém nada
De novo souberam mais.
Polônio estava correto
E Hamlet louco demais.
O rei chamou dois rapazes
Pra saber dos fatos tais.
Esses dois rapazes eram
Rosenildo e Guilhermino,
Velhos amigos de Hamlet,
Desde quando era um menino.
Colher segredos do príncipe
Era o seu novo destino.
Os dois fingindo-se amigos
Leais do príncipe herdeiro,
Chegaram-se para Hamlet
Com prosa de interesseiro.
E desse jeito seguiu
Um bate-papo ligeiro:
- Senhor Hamlet, como estás?
Há muito que não nos vemos.
E o príncipe respondeu:
- Não tão bem quando comemos.
Mas a que vêm vocês dois
Até os reinos extremos?
Rosenildo e Guilhermino
Responderam com cinismo:
- Viemos até aqui
Prezar nosso pacifismo.
Ver o nosso amigo príncipe
E todo seu romantismo!
Hamlet desconfiou deles
E novamente indagou:
- Vocês vêm por conta própria
Ou alguém que lhes mandou?
Foi o rei ou a rainha
Que até mim lhes enviou?
Mas nesse instante, no reino,
Houve festa em toda parte,
Acabava de chegar
Um coche com estandarte.
Era um grupo de teatro
Que vinha expor sua arte!
Hamlet se alegrou demais
E para os dois disse assim:
Vocês como estes artistas
São bem-vindos com meu sim.
Descansem como quiserem,
Pois eu vou cuidar de mim.
Hamlet caminhou sozinho
E começou a pensar
Na vida, na morte, em tudo
Que estava a vivenciar.
À procura da verdade
Ele foi filosofar:
- Ser ou não ser, eis difícil
E perigosa questão!
Deixar a vida levar-me
Ou levá-la com a mão?
Se depois da cruel morte
Sofreremos punição...
Príncipe Hamlet sofria
Com tão penoso sentir.
O fantasma diz verdade
Ou mente pra lhe punir?
Hamlet vivia a dureza
De por certo decidir!
O rei mais os dois amigos
E o conselheiro real
Armaram outra armadilha
Para Hamlet, afinal.
O rei já desconfiava
Do seu segredo fatal.
Eles chamaram Ofélia
E a puseram no salão
Hamlet surgiu como louco
Maltratou-a sem razão,
Dizendo: - Amei-te uma vez.
Hoje, não te amo mais não.
Ofélia ficou tristonha,
Perdendo sua firmeza.
Pois amava o bom rapaz
E disso tinha certeza.
Hamlet estava doente;
Tinha perdido a destreza.
Porém ninguém bem sabia
Que ele estava em fingimento.
Fora a única maneira
De comprovar seu intento.
E olhando para os atores,
Hamlet pensou num momento:
- Lembro que na faculdade
Disseram-me conhecidos:
Criminosos confessaram
Quando viram parecidos
Crimes do jeito dos seus
E no ato foram rendidos.
Escreverei uma peça
Narrando o assassinato.
Verei os passos do rei
Para comprovar o fato.
A sua reação é
O que mais quero de fato.
A noite chegou e a peça
Pediu no reino passagem.
Um rei dormindo tranqüilo
Enquanto serpentes agem.
Traído pela mulher
Não percebeu sacanagem.
Nesse instante um ser estranho
Coberto pelo sereno
Surgiu no palco como um
Perigo leve e ameno.
Quando derramou no ouvido
Do rei um mortal veneno.
O rei Cláudio passou mal
E gritou pedindo luz.
Mandou parar com a peça
Como um tiro de arcabuz.
Todos saíram dali
Como se estivessem nus.
Hamlet festejou vaidoso
Pela certeza do plano.
Vingaria seu pai morto
Com a voz de um soberano.
O fantasma não mentira
Como faz o ser humano.
Constrangido pela peça,
O rei Cláudio se escondeu.
Foi rezar a Deus a culpa
Da morte que cometeu.
Hamlet passou por ali
E seu ato prometeu.
Retirou a sua espada
Da bainha e apontou
Para as costas do rei Cláudio,
Porém logo retirou.
- Matá-lo rezando é prêmio,
Perdoará do que errou.
Hamlet retirou-se logo;
Pensar em tudo queria.
Armar um plano certeiro
Sua mente exigiria.
Quis descansar por um tempo
Depois seguir nova via.
Nos aposentos reais,
Gertrudes já conversava
Com Polônio sobre Hamlet
De como louco ele estava.
Nesse momento chamaram-na;
Era Hamlet que chegava.
Polônio escondeu-se atrás
Duma comprida cortina.
Hamlet perguntou a mãe
Pela conduta ferina:
- Por que traíste meu pai,
Mulher de tão pouca sina?
Gertrudes nervosa disse:
- Não me reconheces mais?
Hamlet respondeu assim:
- Claro que sim, quem és mais?
A rainha, minha mãe
Ou minha tia. Quem mais?
Hamlet estava agitado
E num suspiro bradou:
- Senhora, vou te mostrar
No que a vida a transformou.
Nenhum espelho fará
Impune o mal que ficou.
A rainha entrou em pânico
E foi socorro pedindo.
Alguém gritou da cortina
E devagar se bulindo.
Pensando que fosse o rei
Hamlet foi ligeiro agindo.
Antes que o alguém saísse,
Príncipe Hamlet feriu
Com a ponta da espada
Quem por ali consentiu.
Quando olhou, não era o rei.
Hamlet um pesar sentiu.
Ainda agitado, Hamlet
Mostrou a mãe um retrato.
- Vê o teu rei falecido
Tu o amaste de fato?
Cláudio, ó minha rainha,
É quem nos tem sido o rato.
O fantasma ressurgiu
Para com Hamlet dizer:
- Deixe tua mãe, meu filho,
Ela é o teu bendizer.
Somente Cláudio, teu tio,
É quem deve perecer.
Hamlet carregou o corpo
Daquele vil conselheiro.
Num tempo, todo o castelo
Procurava-o por inteiro.
O rei pensou: - Ele sabe
O que fiz de traiçoeiro.
Portanto, vou enviá-lo
Para a amiga Inglaterra.
Direi-lhe que ficará
Enquanto o tempo se encerra
Até que todos esqueçam,
Mas nem pisará em terra.

Pois escreverei pedido
E os ingleses cumprirão.
Matar o príncipe Hamlet
Por seguinte acusação:
Deve ser morto este homem
Pelo crime da traição.
Enganado pelo rei,
Hamlet fugiu do país.
Com ele, na sua fuga,
Havia a carta infeliz,
Rosenildo e Guilhermino
E o destino que o rei quis.
No castelo, o rei e a rainha
Viram a maldade então.
Ofélia ficara louca,
Perdendo sua razão.
O pai morto e Hamlet louco
Foram sua perdição.
Fazendo tudo ficar
Pior do que já estava,
Laertes, irmão de Ofélia,
Ao reino assim retornava.
Jurando vingar a morte
Do pai que tanto adorava.
Laertes querendo guerra
Para o rei assim falou:
- Vou matá-lo, senhor Cláudio,
Pelo mal que me causou.
E o rei disse àquele moço:
- Hamlet foi quem o matou!
Laertes ficou raivoso
Por não ter sua vingança.
Sua ira nesse momento
A verseja não alcança.
Vendo a irmã toda insana,
Chorou como uma criança.
Acontece que num dia
De calor e primavera,
Ofélia foi passear
Como criança que era.
E viu belíssimas flores
Numa trepadeira mera.
E querendo assim colhê-las,
Subiu nos galhos danada.
Porém num descuido só
Caiu duma escorregada
Dentro de um riacho fundo
‘Té que morreu afogada.
Horácio estava tristonho
Por todo aquele penar.
Quando num dia uma carta
Apareceu em seu lar.
Era do príncipe Hamlet
Que lhe escreveu a narrar:
- Fugi do navio em que estava
E no reino já cheguei.
Rosenildo e Guilhermino
Os seus destinos mudei.
Estou cá no cemitério,
Vem e o resto contarei.
No mesmo dia, o Rei Cláudio
Também carta recebeu
Era do príncipe Hamlet,
Que desculpas prometeu.
Cláudio para matar Hamlet
A Laertes convenceu.
Gertrudes chegou chorosa
E aos homens noticiou:
- Ofélia está então morta
Num riacho se afogou.
O reino, naquele dia,
Com muito pesar chorou.
Hamlet e Horácio se viram
No local outrora visto.
Bem ali no cemitério
Ouviram canto – por Cristo! –
Era o coveiro dali
Que muito mangava disto.
O príncipe curioso
Perguntou ao tal coveiro:
- A quem pertence este túmulo,
Senhor de cantar faceiro?
- Pertence a mim que estou nele,
Meu ilustre cavalheiro.
Hamlet insistiu sorrindo:
- E quem será enterrado
Será homem ou mulher?
O senhor disse de lado:
Nenhum dos dois, cavalheiro,
Só mortos têm esse fado.
Hamlet muito gargalhou
E o coveiro prosseguiu:
- Para alguém que foi mulher
Que desta vida partiu.
Então Hamlet viu um crânio
E ao coveiro prosseguiu:
- A quem este pertenceu,
Ó engraçado senhor?
- Pertenceu a um palhaço
Que d’outro rei foi ator.
Chamava-se por Eurico,
Era um grande animador.
O príncipe segurou
O tal crânio com carinho
E a Horácio disse que
Conhecera o “palhacinho”.
Que ambos foram bons amigos
Quando era pequenininho.
Mas chamando-lhes a vez
Um cortejo ali chegava.
Hamlet não acreditou
Quem no caixão descansava:
- Ofélia, minha querida!
A pobre dormindo estava.
O príncipe foi velá-la,
Mas Laertes procedeu.
Ambos ligeiro brigaram
Quando o rei interrompeu.
Hamlet disse para todos:
- Quem mais a amou fui eu!
Depois de todo infortúnio,
Um duelo ocorreria.
Laertes quis se vingar
Pela manhã d’outro dia.
Ele com o rei tirano
Uma armadilha faria.
O rei Cláudio pra Laertes
Contou sua presepada:
- Colocarei uma pérola
No meu vinho, envenenada.
Depois oferecerei
A Hamlet como cilada.
Ele morrerá ligeiro
E tu assim vencerás.
Laertes disse medonho
A garantir coisas más:
- Minha espada envenenada
Será desse jogo o ás.
Na dita manhã seguinte,
Os dois rapazes pegaram
Em armas para limpar
Aquilo que não criaram.
Pelo crime de um tirano
Muitos por ali pagaram.
O duelo ocorreria
Em nove assaltos seguidos
Entre cada qual ũ’a pausa
Segundo termos validos
Como a tradição rogava
Desde séculos sabidos.
Laertes e Hamlet foram
Então para o tal lugar.
Hamlet pediu condolências
Laertes disse aceitar
O duelo era somente
Para o seu nome limpar.
A luta começou tensa
De nervosismos à parte,
Hamlet estava mais calmo
E Laertes com vil arte.
Mais movido pela raiva
Que tinham Hades ou Marte.
Hamlet dotou calculista,
Sendo rápido e sagaz.
Danou um golpe certeiro
Que Laertes incapaz
Pôs-se a defender-se, então
De Hamlet ficou atrás.
- Um a zero para Hamlet!
Trovejou alto o juiz.
O rei of’receu um gole
Porém Hamlet não o quis.
E por muito pouco Cláudio,
O rei, não ficou feliz.
O segundo assalto seguiu
Igual ao anterior.
Laertes muito nervoso
E Hamlet respeitador.
Num outro golpe ligeiro
Hamlet mudou marcador.
- Dois a zero para Hamlet!
Muita gente festejou.
Mas nesse momento foi
Visto algo que se danou.
A rainha festejando
A taça em mãos cortejou.
A rainha levantou
A taça e logo bebeu
O licor envenenado
Contudo, não percebeu
Que ali havia veneno
E chegava o final seu.
O terceiro assalto foi
Como os outros igualmente,
Hamlet estava melhor
Mas numa pausa aparente.
Laertes chegou a Hamlet
Ferindo-o covardemente.
A espada envenenada
De seu sangue se manchara.
Logo Hamlet morreria
Com o que a vida não sara.
E a morte, sempre invencível,
Queimará tudo em coivara.
Hamlet ficou raivoso
Com aquela covardia
E duma espada domou-se
Em ter sua rebeldia.
Na confusão dessa luta
Também de socos valia.
As espadas atiradas
Na luta foram ao chão.
Cada qual pegou a d’outro
Hamlet tinha em sua mão
A espada envenenada
Sem saber do seu ferrão.
E assim Hamlet atingiu
Laertes com seu intento.
Nesse momento, Gertrudes
Sentiu um mal passamento.
E vendo Cláudio imune
Laertes visou portento.
Gertrudes caiu depressa
Sendo logo socorrida.
Quem ali esteve perto,
Escutou a voz sentida.
Antes de morrer lhes disse:
- Isso é obra da bebida!
Laertes então falou
Para Hamlet pesaroso:
- Assim como eu, senhor príncipe,
És já um pobre penoso.
Corre vil em nossas veias
Um veneno poderoso.
Não há medicina certa
Para curá-lo, bem sei
Fui morto com minha arma
E com este mal te dei
A morte de tua vida;
A culpa é toda do rei!
Hamlet levantou feroz
E até rei Cláudio correu
E com a maldita lâmina
Um corte nele então deu.
Depois com a cruel taça
Fez Cláudio beber do seu.
Laertes veio a morrer
Mas antes Hamlet lhe disse
Que tudo estava em perdão
E que Deus bem consentisse
O seu medonho pecado
E desse jeito seguisse.
Hamlet tombou sua morte
Em amicíssimos braços.
Horácio vendo a desgraça
Quis também penosos traços.
Porém Hamlet lhe pediu:
- Amigo, amarre meus laços.
Espalhe por todo o mundo
O que aqui se sucedeu.
Conte assim certo por certo,
Limpe o sujo nome meu
Para que entendam meus atos
E a desgraça que se deu.
Fortimbrás da Noruega
Ali logo se apresentou.
Seu poder e suas tropas
E Horácio a ele falou:
- Esse reino agora é teu,
Hamlet a ti o passou.
Horácio contou tudo
O que ali acontecera.
Relatou com seu pesar
Tragédia que conhecera.
A corte, mui comovida,
A Hamlet reconhecera.
Fortimbrás enterrou Hamlet
Como um digno e nobre rei.
A vingança e a cobiça
São os males que narrei
O homem é um brinquedo
Dessas coisas que falei.
E desde mil e seiscentos
Essa peça é exibida
Conclamada pelos séculos
A melhor vista e ouvida
E que o cordel – sem igual –
Resolveu versá-la em vida.
Epílogo acróstico
Resta o silêncio de Hamlet
Ante a tragédia narrada.
Feita por este cordel,
Aos leitores de bancada.
E digo a todos os povos
Ler é suprema jornada!
Recife, 13 de julho de 2008.
Dia mundial do Rock.

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